segunda-feira, 5 de março de 2018

Doze respostas para o sofrimento



Obs: Este texto não é introdutório. Sugiro que leia alguns dos outros textos do blog que abordam o assunto para que você entenda este.

Acho que deveria, aqui, dizer por que quero escrever tudo que prometi no título. Bem, talvez eu só queira te dar as respostas. E, por certo, você acredita que precisa disso. Mas não se iluda! O seu sofrimento não termina simultaneamente com a última frase deste post. Será que depois disso você dirá que não precisava de respostas? Se você quer saber disso, continue a ler!

Nota 1- Aqui eu apresento respostas cristãs e não-cristãs. Nem eu, nem o blog estamos a defender todas elas. Minha proposta é apenas expor.

Nota2- Quero ser sucinto, portanto, não vou falar em detalhes nenhuma das respostas, e sim expor brevemente.

Respostas não-cristãs

Zoroastrismo

Para a antiga religião, fundada por Zoroastro, chamada de Zoroastrismo, existem dois deuses. A saber, Ormuz e Arimã. Os dois criaram o mundo. O primeiro criou as coisas boas e o segundo criou todas as coisas más. A solução para o sofrimento do mundo seria uma vitória final do bem (Ormuz). O mal, assim, seria exterminado no fim dos tempos.

Resposta Hindu

“O hinduísmo, tanto em sua forma clássica como na popular, ensina que os homens maus sofrem hoje o resultado de más ações praticadas nalguma existência anterior. Cegueira, luto, fome, desastre e dor são merecidos castigos dos erros de uma vida anterior. Esta é a doutrina hinduísta do karma, e associada a ela está a crença na transmigração das almas, da qual virtualmente não há fuga”. (William Fitch – Deus e o Mal)

Resposta Budista

Para o Budismo o problema não é o sofrimento. O mal é um sintoma. Há sempre um desejo por detrás de todo mal e sofrimento. A perda de um filho só é um mal, pois nela reside o desejo de permanência da vida do filho. Uma grave doença só causa uma forte dor, pois o que lhe sustenta é o desejo de conforto e boa saúde. A solução para não sofrer seria a extinção do desejo.

“Cultivar a morte do desejo veio a ser o fim supremo da vida. O mal reside no desejo; e, portanto, a libertação do mal necessariamente está na fuga ou na morte do desejo. A resposta do budismo ao problema do mal é o cultivo dessa morte. O Nirvana é realmente a extinção de toda a realização pessoal”. (William Fitch – Deus e o Mal)

Respostas Cristãs

Resposta do Livre-Arbítrio

Esta é a resposta clássica mais antiga do Cristianismo. Para seus defensores: Uma das coisas que Deus mais valoriza é o relacionamento. Mas para que o relacionamento seja verdadeiro é necessário que seja livre isto é, que os envolvidos nele escolham livremente se relacionar juntamente. É graças a esta liberdade que os homens podem ser bons, mas, também, é graças a ela que podem ser maus. Deus ao criar o homem, viu que ao dar o livre-arbítrio para o mesmo, poderia dar a chance para que sua criação se torne má e cause sofrimento no mundo. Mas, mesmo assim, decidiu nos criar com esta tal de liberdade, pois visou um bem maior: Longe da liberdade não existe amor. É graças a ela que podemos ser bons e, também, ter um relacionamento com Deus.

Resposta pedagógica

“Na teodiceia pedagógica, o enfoque e deslocado da origem do mal, e é colocado principalmente nos possíveis bons resultados da experiência do sofrimento. A ideia é que a experiência do sofrimento (mal) seria um beneficio indispensável para o melhor desenvolvimento das capacidades humanas, do contrario a humanidade permaneceria eternamente na infância. Argumenta-se, por exemplo, que um pouco de sofrimento aumenta a nossa própria satisfação com a vida e que um sofrimento maior e mais intenso desenvolve em nós uma maior profundidade de caráter e de compaixão. Além disso, essa posição enfatiza a realidade de que vivemos em um mundo regulado por leis naturais e que boa parte do mal existente no mundo decorre da atuação dessas leis”. (Luiz Sayão – O problema do mal no antigo testamento)

Resposta de Gordon H. Clark

Deus criou, para Clark, o mal e o sofrimento – sendo estes a consequência do pecado. Mas Ele é a causa e não o autor. Assim como Deus é a causa das Institutas e não o seu autor – deste modo, Calvino seria a causa imediata e Deus a secundária. Deus determina até os nossos pecados, não havendo liberdade para o homem escolher não pecar. Em suma, Deus seria a causa, até mesmo, dos nossos pecados. Mas, posto que Ele não pode pecar, a responsabilidade pelo pecado e o sofrimento é do homem. Aliás, a palavra responsável indica que alguém deve prestar contas a um superior. Visto que não há superior a Deus, o responsável é sempre um homem.

Resposta de John W. Wenham 

Diferentemente de Clark, Wenham acredita na liberdade humana. E é pelo mau uso desta que ocorre o pecado. Você deve estar perguntando: “Qual é a relação do pecado com o sofrimento”, né? A resposta é que o sofrimento é o sintoma do pecado. Todos sofremos como punição de Deus por conta de nossos pecados. Como todos pecaram, todos sofrem. E esta punição ocorre de modo que todos veem a consequência do pecado no mundo: o sofrimento.

Teoria do mal aparente

Para seus defensores, um fato que trás sofrimento pode até ser doloroso e, aparentemente, mal. Mas visto depois de certo tempo, com mais cuidado, o que era mau pode ter causado um bem maior. O mal é aparente.

Ex.: Ter perdido o voo para aquela reunião importante por ter chegado atrasado pode parecer ruim. Mas, se depois você descobrir que o avião caiu, um homem com bom senso dirá que foi uma benção não ter entrado no avião.

A teodiceia da edificação da alma - John Hick:

Fomos criados a uma distância epistêmica de Deus. Se o oposto estivesse correto, a liberdade inexiste. Acalme-se que eu explico! Ao olharmos o mundo, pelo menos em primeira análise, vemos o mundo, e não, Deus. Se olhássemos o mundo e víssemos Deus, mais uma vez, em primeira análise, ficaríamos tão maravilhados  com a sua beleza que não agiríamos para nós, e sim, para Deus. Perderíamos a nossa liberdade. Deus, assim, cria um mundo ambíguo. Onde você pode ver o mundo por si só, mas pode, também, ver a Deus. Ele o faz para que ninguém limite a própria ação por conta dEle. Somos, desse modo, imperfeitos (moralmente), para que um dia sejamos perfeitos. Nascemos longe de Deus para que um dia, depois de muito sofrimento e aprendizado moral, venhamos a amá-lo e conhece-lo. Se fossemos criados de outro modo, não O (Deus) desejaríamos. Nesse sentido, a história da humanidade é a história de um povo que evolui moralmente tornando-se capaz, depois de ver a maldade se manifestar, de extrair alguma lição, quem sabe, de descobrir uma nova virtude, pois só damos valor à lição depois da perda. Em suma, o sofrimento é necessário para a evolução no tocante à moralidade humana.

Resposta de Caio Peclat

Tudo o que existe possui grau algum de existência. Deus também a possui, contudo, em grau máximo, visto que existe antes de todas as coisas. O Criador ao criar o homem, dá uma existência apequenada para que o homem não se glorie. Sua criação, assim, possui uma data de nascimento - diferentemente de seu criador. Note que a ideia é que: a criação não pode louvar a si mesma. Portanto, tenha em mente sempre que a existência do homem não pertence a ele e sim a Deus.

O problema é que o homem acredita que é senhor de seu corpo – “meu corpo, minhas regras”, dizem alguns, mas que coisa é essa de “meu corpo”? Ele não é seu! -, de seu tempo, de sua família e de toda a infinidade de exemplos que você imaginar. Mentimos a nós mesmos para assenhorarmos – tornarmos donos de algo. É neste ponto que surge o sofrimento. Deus envia a infelicidade para que o homem pare de se ver justo, senhor, chefe – e et cetera – e reconheça que é miserável, isto é, não é dono de nada. Eis aqui a explicação para o sofrimento! É desta infelicidade que nasce a miséria, e, da miséria nasce uma palavra para louvar e agradecer a Deus pelo que Ele é e pelo que fez: Senhor. Que reconhece que Ele é dono de tudo e eu, de nada.

Respostas diversas

Resposta de Lucrécio

Lucrécio, em seu poema-filosófico, afirma que a natureza das coisas é o acaso. Não há uma ordem no mundo, em Lucrécio, senão a aleatoriedade.  Isto significa que se um mal lhe atingiu, não é culpa sua. Você foi apenas mais um sorteado, no bingo da existência, para sofrer. Não faz a menos diferença no que escolher, a vida é muito maior que você e ninguém possui controle sobre ela. Por isso, o sofrimento é irracional. Não importa o que você fizer, é a vida, e não você, quem decide quem irá sofrer.

Teísmo aberto

Para seus defensores, Deus não sabe das coisas futuras. Imagine que uma mulher pede ao Senhor um marido por anos. Ao conseguir, o homem a trai e a deixa grávida para viver com a amante. O teísmo aberto diz que Deus não sabia das ações futuras do marido desta mulher. O Senhor o preparou para um feliz casamento, mas um mau uso da liberdade causou tanto sofrimento. A culpa não seria de Deus.
Caio Peclat da Silva Paula

domingo, 24 de dezembro de 2017

Neste Natal, Sakamoto ainda não sabe quem foi Jesus


Sakamoto é um “influenciador digital” que acha que entende das coisas e quer comentar. Neste texto, Sakamoto tenta passar uma imagem de Jesus que não condiz com nenhuma teologia séria ou qualquer estudo do Jesus histórico.
Mas o que podemos dizer do texto dele? Vamos avaliar ponto por ponto e ver porque Sakamoto está errado.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Chamados para sermos desrespeitados!

                     

                       

<https://blogs.universal.org/bispomacedo/wp-content/uploads/2017/03/ovelha-706x432.jpg>


Três de dezembro de dois mil de dezessete no calendário cristão. Poucos veículos circulavam naquela manhã de domingo. É uma pena que não me lembre das condições meteorológicas. Algumas coisas sublimaram de minha memória. E o fizeram mais rápido do que eu poderia perceber. Conto aqui, sem muitos detalhes, algo que aconteceu neste dia que acredito ser interessante para iniciar uma reflexão, mesmo sem a pretensão de terminá-la:

Lecionava acerca de novos desafios que a igreja do presente século deve enfrentar. A discussão começou a se tornar específica, gravitando em torno de um grupo de pessoas que tem crescido e precisam ouvir, mesmo sem eu saber como, o evangelho. Nego-me a dizer qual era o grupo. Isto é completamente irrelevante para o assunto tratado neste texto. Mas o pensamento lançado ao vento, com hercúlea coragem, por parte de um aluno, naquela classe foi: “Se o grupo x não nos respeita, nós (cristãos) devemos respeitá-lo? Se eles não me respeitam, eu também não vou respeitá-los!”. O que se segue parte da problematização do que este discente disse.
Fiquei pensando em como Jesus agiria neste caso. Lembrei-me imediatamente de um dos textos que mais gosto dos evangelhos:

'— Escutem! Eu estou mandando vocês como ovelhas para o meio de lobos. Sejam espertos como as cobras e sem maldade como as pombas.   '

Mateus 10:16

Alguns versículos antes, Jesus prepara seus discípulos para o ministério dizendo o que devem fazer. A partir do dezesseis (16) o mestre começa a discursar sobre as perseguições que seus seguidores iriam passar.

O Dr. Jonas Madureira costuma citar estes versículos e fazer a seguinte pergunta: “O que fazem as ovelhas em meio aos lobos”? – Ele mesmo responde – “Elas são devoradas”! Você não leu errado. Somos chamados para sermos devorados! Qualquer tentativa de fazer desta Terra um Céu, é mentirosa. E qualquer pensamento que trata este mundo como um lugar de gozo e beatitude, é infiel à verdade anunciada por Jesus. Na forma que expôs Lucas Banzoli: “[Somos] chamados para crer e sofrer”.

Devemos tomar cuidado para que não surja uma geração de arrogantes intelectuais. Pessoas que só pensam em vencer os debates, em serem os mais inteligentes da sala, em terem os melhores argumentos ou em serem os autores das teses mais inovadoras. Não podemos esquecer-nos de dar a outra face. Aliás, em Jesus aprendemos que a melhor forma de ensinar o amor é amando as pessoas de tal maneira a deixar sermos humilhados por elas. Quando alguém me humilha também espera que eu faça de igual modo. Mas quando eu me entrego para ser humilhado sem querer “dar o troco”, as ovelha vence o lobo.

Confesso que não quero dar um ponto final neste texto. Meu desejo é provocar uma reflexão que vai além destas palavras. Gosto de pensar que os meus escritos não foram feitos para se restringirem à tela do computador. Leve isto para onde você for: para casa, para o trabalho, para a vida... Mas, por favor, não esqueça: Se te desrespeitarem, deixe ser humilhado – eu sei, é difícil! Fomos chamados para sermos desrespeitados.

Caio Peclat da Silva Paula

sábado, 2 de dezembro de 2017

O Grito de Desespero do Novo Ateísmo


Nos últimos anos, houve no meio popular a grande ascensão do movimento dos novos ateus (ou neo-ateus) tentando ir contra os movimentos cristãos e tentando dar objeções à fé cristã que, para eles, parecem ser fortes. Os Neo-ateus se dizem os grandes “pensadores livres”, os quais questionaram a cultura cristã em que nasceram, e são aqueles que estão do lado da ciência. Porém, em última análise, o novo ateísmo passa longe de nos proporcionar algum desafio intelectual. A falha miserável de pessoas como Richard Dawkins, Stephen Hawking, Lawrence Krauss, e outros em tentar refutar a fé cristã se vê apenas como um grito de desespero.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Apologistas como advogados da igreja

                                  

Venho de uma família de pastores. Meu avô é pastor, meu tio também e o meu pai é presbítero. Todos os dias aprendia uma lição diferente sobre como deveria me comportar como cristão. Sou um jovem que nunca deixou a liturgia de lado, sempre orei, li a Bíblia, frequentava, e ainda frequento, a maioria dos cultos que posso participar e, como um bom religioso, tenho, o que se pode chamar, de reputação ilibada perante os que me cercam. No entanto, passei há alguns anos por uma crise de fé. É a partir dela que eu inicio toda esta reflexão.

Na época, era eu um porteiro da igreja. Não sabia se meu Patrão (Deus) existia ou se seria eu um tolo. Não me preocupava com o salário (recompensas), queria saber somente: “Seria eu um autônomo ou seu servo”? Foi então que conheci, verdadeiramente, a apologética. Se todos os descrentes conhecessem o que dizem os apologistas, uma considerável parte seria persuadida, como eu fui. O triste problema é que os ateus só conhecem - algumas – igrejas. Mas os problemas não acabaram de vez. Conheci nas leituras apologéticas um Cristianismo diferente daquele que hoje vejo nas igrejas que visito e, também, na que congrego.

Aquele mito, que nós apologistas destruímos, de que a ciência é contrária à fé cristã encontra adeptos dentro de ambientes religiosos. Canso-me de ouvir discursos onde a ciência é negada e desprezada para salvar a fé deste falacioso “dilema”. E o que dizer da falta de conhecimento a cerca do Cristianismo e das demais religiões? Frases como “Os budistas adoram a Buda” ou como “Não existe nem mesmo uma prova da existência de Deus. É tudo pela fé” só mostram o analfabetismo religioso de nossos líderes.

Outro problema é a intolerância religiosa. A apologética cristã mostra que a nossa religião não é intolerante ao fazer críticas a partir de textos bíblicos. Mas em meus dias vejo críticas como: “É necessária muita fé para acreditar em algo desses” ou “É mais fácil acreditar em Cristo do que no Espiritismo”. Minha pergunta é: Se a nossa regra de fé é a Bíblia, onde ela está nestas críticas? Acredito nem ser necessário citar as frases mais vergonhosas que alguns representantes – digo, alguns e não todos- proferem, as frases que escolhi são as mais brandas.

Muitos representantes – repito: Não são todos - não possuem a mínima ideia de apologética e outras áreas da Teologia. Cabe, infelizmente, aos apologistas defender o Cristo que eles pregam, mesmo não concordando em todos os pontos. Cabe a nós o ônus de mostrar aos descrentes um Cristianismo tolerante, alfabetizado religiosamente – pois nossa pretensão, por enquanto, é pequena, não precisa ser culto – e, no mínimo, que entende os conceitos mais básicos da Teologia. Nossa missão – como apologistas - é clamar. Clamar até que haja ouvidos para nossas bocas. Até que tenhamos vozes e alguém nos ouça.

Caio Peclat da Silva Paula

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Dan Brown, Deus e a Ciência


Para o melhor ou para o pior (provavelmente para o pior), Dan Brown novamente tenta falar besteira sobre Deus. Como seu livro O Código Da Vinci já foi demonstrado inúmeras vezes como uma obra que contém tantos erros históricos quanto poderia ter, Brown parece que não pode ficar quieto e fazer alguma pesquisa séria, ele tem que escrever sobre aquilo que acha “ruim” (o que nos faz pensar sobre qual a base dele para chamar algo de “ruim”, mas ok.)

Dan Brown, Deus e a Ciência


Deus e a Ciência
Dan Brown alegou o seguinte:

Historicamente, nenhum deus sobreviveu à ciência. Com os avanços da tecnologia, a necessidade de um Deus exterior, que nos julga vai desaparecer. [1]

Brown está correto em uma coisa: No passado as antigas culturas e religiões explicavam fenômenos dizendo que os deuses os haviam causado. Mas é uma grande extrapolação dizer que os filósofos teístas em toda a história que colocaram Deus como o criador do universo fizeram isso da mesma forma. Na verdade, o Cristianismo em si é diferente dessas religiões pagãs, e a história da ciência nos mostra isso.
Durante a história, os cientistas cristãos eram bastante diferentes dos religiosos pagãos. Por exemplo, enquanto muitos deles viam a natureza como deuses ou causada por deuses, de modo que não deveria ser investigada, os cristãos sempre olharam para a natureza buscando entender como Deus havia feito aquilo.
Por exemplo, por que a ciência não se desenvolveu mais na China, que possui bem mais tecnologia, do que na Europa? O biólogo Edward Wilson responde:

... Os estudiosos Chineses abandonaram a ideia de um ser supremo com propriedades criativas e pessoais. Nenhum Autor racional da Natureza existia em seu universo; consequentemente, os objetos que eles descreviam não seguiam princípios universais, mas, ao invés disso, operavam dentro de regras particulares que eram seguidas por essas entidades na ordem cósmica. Na ausência de uma necessidade para a noção de leis gerais – ou, pensamentos na mente de Deus, por assim dizer – pouca ou nenhuma pesquisa era feira para elas.[2]

David Livingstone, professor de geociência da Queen’s University também foi bem claro quanto à participação do Cristianismo na ciência. Ele diz: “A ideia de que o cristianismo e a ciência estão constantemente em conflito é uma grosseira distorção do testemunho histórico. Na verdade, Robert Boyle, o grande químico inglês, acreditava que os cientistas, mais que quaisquer outros, glorificavam a Deus na realização das suas tarefas porque lhes foi dado investigar a criação de Deus.”[3]
A afirmação de que o Cristianismo e a ciência são opostos está em total contradição com a história da ciência, que foi desenvolvida principalmente por causa dos cristãos.
Na realidade, é impossível que a ciência acabe com Deus. Por quê? Porque poderíamos saber tudo sobre o universo e seu funcionamento por meios naturais, ainda assim isso não descartaria a existência de Deus.
O filósofo da ciência John Lennox demonstrou isso com um exemplo: Imagine que um homem primitivo viesse a ter contato com um carro. Nesse primeiro instante, ele poderia dizer que o carro anda por causa do “deus dos carros”. Com o tempo, ele vai entendendo que o carro funciona com um motor e vários mecanismos. Ele descobre que acontece toda uma química por dentro do carro que faz com que ele funcione. Ok! Ele pode saber tudo isso. Mas isso não faz com que ele seja capaz de dizer que não existe um projetista ou designer do carro. Saber como funciona o motor do carro não significa que não se pode dizer que não há um criador do carro. [4]
O historiador da ciência Alfred North Whitehead colocou muito bem quando disse que: “Os homens tornaram-se científicos porque esperavam lei na natureza; e eles esperavam lei na natureza porque acreditavam em um Legislador.” [5]
Mas e então? Tendo mostrado que os cristãos em toda a história foram a causa do crescimento da ciência, podemos dizer, ainda assim, que a criação do universo por Deus é igual aos mitos antigos das religiões pagãs?
A ciência estuda o mundo natural. Mas antes de existir o universo, não existia natureza. Então como pode a ciência buscar uma causa que seja governada por leis da natureza, sujeita ao tempo, ao espaço e à matéria, sendo que não havia nada disso antes?
O que o teísta esta fazendo não é dizer, “Não sabemos, portanto foi Deus.” O contrário! Ele esta dizendo: Sabemos que a natureza teve um início, portanto a causa só pode ser sobrenatural.
Pense nisso: Como pode algo natural criar a natureza? Seria como se você dissesse que deu a luz a si mesmo. Sendo que não havia nem tempo, nem espaço e nem matéria antes da origem da natureza, a causa tem que, necessariamente, estar além do tempo, do espaço e da matéria. Além disso, já que criou o universo a partir de absolutamente nada, ela deve ser infinitamente poderosa. Mas veja bem: Isso é exatamente o que o Cristão quer dizer quando fala de Deus! Alguém além do espaço, do tempo e da matéria que é onipotente.
Então, o Cristão não esta dizendo que Deus é a causa de algo que não sabemos. Mas sim dizendo que a melhor explicação para um fenômeno que sabemos é a de que há um Criador Transcendente.
Quando fazemos a Teologia Natural, nós não apelamos ao desconhecido. Ao contrário, usamos o que sabemos da ciência como evidência para a premissa de um argumento filosófico que nos leva a uma conclusão teológica. Considere estes exemplos:

Argumento Cosmológico Kalam:

P1 – Tudo o que começa a existir tem uma causa
P2 – O universo começou a existir
Conclusão – Portanto o universo teve uma causa

Argumento Teleológico:

P1 – O ajuste fino do universo se deve a necessidade física, ao acaso ou ao design
P2 – Não é por necessidade física ou ao acaso
Conclusão – Portanto, é por Design

Em ambos esses casos, a P2 é fortalecida por evidências cientificas vindas dos estudos da cosmologia contemporânea. Se ambos os argumentos tiverem sucesso, então há boas razões filosóficas e cientificas para se crer em um Criador e Designer do universo.
Claro, nenhum desses argumentos prova o Deus da Bíblia. Eles nem são intencionados a isso. Mas, se bem sucedidos, provam um Deus que pode ser o Deus do Cristianismo. E, para ir além, devemos partir para as evidências históricas a favor do cristianismo, como as evidências da historicidade do Novo Testamento e as evidências da ressurreição de Jesus.
Porém, algo mais importante se torna evidente pela afirmação de Brown. A pressuposição de que a existência de Deus depende das pessoas crerem n’Ele como alguém útil para explicar fenômenos. Porém, tal pressuposto é completamente falacioso. Supondo que não houvesse nenhuma evidência para a existência de Deus vinda da ciência, ainda assim Deus poderia existir. Deus não é alguém “útil” para explicações. Deus é um ser metafisicamente necessário, que existe mesmo antes de qualquer ser vivo no universo existir.
Em suma, Dan Brown erra miseravelmente com sua afirmação de que a ciência nega a existência de Deus. Ele erra em dois pontos centrais: Não perceber que foram os cristãos que fizeram da ciência o que ela é hoje, e no pressuposto de que a existência de Deus depende da crença n’Ele como forma de explicar fenômenos. Mas mais importante que isso, essas afirmações e pressupostos, mesmo se corretos, ainda assim não descartariam Deus como explicação ultima da realidade. Pois mesmo que explicássemos tudo por meios naturais, ainda seria necessária uma explicação do por que a natureza existe e do por que de conseguirmos compreende-la. Isso o ateísmo jamais conseguirá explicar.



[1] Folha de São Paulo, Deus vai desaparecer, diz Dan Brown, que lança livro em Frankfurt, disponível em < http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/10/1926555-deus-vai-desaparecer-diz-dan-brown-que-lanca-livro-em-frankfurt.shtml> acesso 15 de outubro de 2017
[2] E. O. Wilson, Consilience: The Unity of Knowledge, Vintage, 2014, p. 31
[3] Citado em Lee Strobel, Em Defesa da fé, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 296
[4] John Lennox e David Gooding, Cristianismo: Ópio do povo?, Porto Alegre: A Verdade, 2013, p. 43; ao invés do termo “deus dos carros”, Lennox usa “Sr. Ford”
[5] Citado em Cristianismo: ópio do povo?, p. 46

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

“Argumentos e evidências são para os que tem fé fraca.” – Uma Resposta

http://www.patheos.com/blogs/unequallyyoked/2016/07/rational-faith-more-working-hypothesis-than-logical-proof.html

Proponentes do Fideísmo costumam dizer que aqueles que possuem argumentos e evidências para sua fé são os que possuem uma fé fraca e, por isso, precisam de um apoio intelectual para ela.
Já lidamos com argumentos baseados em João 20:29 e Hebreus 11:1, que são versículos usados para tentar defender uma fé cega com base na Bíblia. Agora, vamos lidar com a afirmação de que as evidências são para aqueles que possuem uma fé fraca.