terça-feira, 17 de outubro de 2017

Dan Brown, Deus e a Ciência


Para o melhor ou para o pior (provavelmente para o pior), Dan Brown novamente tenta falar besteira sobre Deus. Como seu livro O Código Da Vinci já foi demonstrado inúmeras vezes como uma obra que contém tantos erros históricos quanto poderia ter, Brown parece que não pode ficar quieto e fazer alguma pesquisa séria, ele tem que escrever sobre aquilo que acha “ruim” (o que nos faz pensar sobre qual a base dele para chamar algo de “ruim”, mas ok.)

Dan Brown, Deus e a Ciência


Deus e a Ciência
Dan Brown alegou o seguinte:

Historicamente, nenhum deus sobreviveu à ciência. Com os avanços da tecnologia, a necessidade de um Deus exterior, que nos julga vai desaparecer. [1]

Brown está correto em uma coisa: No passado as antigas culturas e religiões explicavam fenômenos dizendo que os deuses os haviam causado. Mas é uma grande extrapolação dizer que os filósofos teístas em toda a história que colocaram Deus como o criador do universo fizeram isso da mesma forma. Na verdade, o Cristianismo em si é diferente dessas religiões pagãs, e a história da ciência nos mostra isso.
Durante a história, os cientistas cristãos eram bastante diferentes dos religiosos pagãos. Por exemplo, enquanto muitos deles viam a natureza como deuses ou causada por deuses, de modo que não deveria ser investigada, os cristãos sempre olharam para a natureza buscando entender como Deus havia feito aquilo.
Por exemplo, por que a ciência não se desenvolveu mais na China, que possui bem mais tecnologia, do que na Europa? O biólogo Edward Wilson responde:

... Os estudiosos Chineses abandonaram a ideia de um ser supremo com propriedades criativas e pessoais. Nenhum Autor racional da Natureza existia em seu universo; consequentemente, os objetos que eles descreviam não seguiam princípios universais, mas, ao invés disso, operavam dentro de regras particulares que eram seguidas por essas entidades na ordem cósmica. Na ausência de uma necessidade para a noção de leis gerais – ou, pensamentos na mente de Deus, por assim dizer – pouca ou nenhuma pesquisa era feira para elas.[2]

David Livingstone, professor de geociência da Queen’s University também foi bem claro quanto à participação do Cristianismo na ciência. Ele diz: “A ideia de que o cristianismo e a ciência estão constantemente em conflito é uma grosseira distorção do testemunho histórico. Na verdade, Robert Boyle, o grande químico inglês, acreditava que os cientistas, mais que quaisquer outros, glorificavam a Deus na realização das suas tarefas porque lhes foi dado investigar a criação de Deus.”[3]
A afirmação de que o Cristianismo e a ciência são opostos está em total contradição com a história da ciência, que foi desenvolvida principalmente por causa dos cristãos.
Na realidade, é impossível que a ciência acabe com Deus. Por quê? Porque poderíamos saber tudo sobre o universo e seu funcionamento por meios naturais, ainda assim isso não descartaria a existência de Deus.
O filósofo da ciência John Lennox demonstrou isso com um exemplo: Imagine que um homem primitivo viesse a ter contato com um carro. Nesse primeiro instante, ele poderia dizer que o carro anda por causa do “deus dos carros”. Com o tempo, ele vai entendendo que o carro funciona com um motor e vários mecanismos. Ele descobre que acontece toda uma química por dentro do carro que faz com que ele funcione. Ok! Ele pode saber tudo isso. Mas isso não faz com que ele seja capaz de dizer que não existe um projetista ou designer do carro. Saber como funciona o motor do carro não significa que não se pode dizer que não há um criador do carro. [4]
O historiador da ciência Alfred North Whitehead colocou muito bem quando disse que: “Os homens tornaram-se científicos porque esperavam lei na natureza; e eles esperavam lei na natureza porque acreditavam em um Legislador.” [5]
Mas e então? Tendo mostrado que os cristãos em toda a história foram a causa do crescimento da ciência, podemos dizer, ainda assim, que a criação do universo por Deus é igual aos mitos antigos das religiões pagãs?
A ciência estuda o mundo natural. Mas antes de existir o universo, não existia natureza. Então como pode a ciência buscar uma causa que seja governada por leis da natureza, sujeita ao tempo, ao espaço e à matéria, sendo que não havia nada disso antes?
O que o teísta esta fazendo não é dizer, “Não sabemos, portanto foi Deus.” O contrário! Ele esta dizendo: Sabemos que a natureza teve um início, portanto a causa só pode ser sobrenatural.
Pense nisso: Como pode algo natural criar a natureza? Seria como se você dissesse que deu a luz a si mesmo. Sendo que não havia nem tempo, nem espaço e nem matéria antes da origem da natureza, a causa tem que, necessariamente, estar além do tempo, do espaço e da matéria. Além disso, já que criou o universo a partir de absolutamente nada, ela deve ser infinitamente poderosa. Mas veja bem: Isso é exatamente o que o Cristão quer dizer quando fala de Deus! Alguém além do espaço, do tempo e da matéria que é onipotente.
Então, o Cristão não esta dizendo que Deus é a causa de algo que não sabemos. Mas sim dizendo que a melhor explicação para um fenômeno que sabemos é a de que há um Criador Transcendente.
Quando fazemos a Teologia Natural, nós não apelamos ao desconhecido. Ao contrário, usamos o que sabemos da ciência como evidência para a premissa de um argumento filosófico que nos leva a uma conclusão teológica. Considere estes exemplos:

Argumento Cosmológico Kalam:

P1 – Tudo o que começa a existir tem uma causa
P2 – O universo começou a existir
Conclusão – Portanto o universo teve uma causa

Argumento Teleológico:

P1 – O ajuste fino do universo se deve a necessidade física, ao acaso ou ao design
P2 – Não é por necessidade física ou ao acaso
Conclusão – Portanto, é por Design

Em ambos esses casos, a P2 é fortalecida por evidências cientificas vindas dos estudos da cosmologia contemporânea. Se ambos os argumentos tiverem sucesso, então há boas razões filosóficas e cientificas para se crer em um Criador e Designer do universo.
Claro, nenhum desses argumentos prova o Deus da Bíblia. Eles nem são intencionados a isso. Mas, se bem sucedidos, provam um Deus que pode ser o Deus do Cristianismo. E, para ir além, devemos partir para as evidências históricas a favor do cristianismo, como as evidências da historicidade do Novo Testamento e as evidências da ressurreição de Jesus.
Porém, algo mais importante se torna evidente pela afirmação de Brown. A pressuposição de que a existência de Deus depende das pessoas crerem n’Ele como alguém útil para explicar fenômenos. Porém, tal pressuposto é completamente falacioso. Supondo que não houvesse nenhuma evidência para a existência de Deus vinda da ciência, ainda assim Deus poderia existir. Deus não é alguém “útil” para explicações. Deus é um ser metafisicamente necessário, que existe mesmo antes de qualquer ser vivo no universo existir.
Em suma, Dan Brown erra miseravelmente com sua afirmação de que a ciência nega a existência de Deus. Ele erra em dois pontos centrais: Não perceber que foram os cristãos que fizeram da ciência o que ela é hoje, e no pressuposto de que a existência de Deus depende da crença n’Ele como forma de explicar fenômenos. Mas mais importante que isso, essas afirmações e pressupostos, mesmo se corretos, ainda assim não descartariam Deus como explicação ultima da realidade. Pois mesmo que explicássemos tudo por meios naturais, ainda seria necessária uma explicação do por que a natureza existe e do por que de conseguirmos compreende-la. Isso o ateísmo jamais conseguirá explicar.



[1] Folha de São Paulo, Deus vai desaparecer, diz Dan Brown, que lança livro em Frankfurt, disponível em < http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/10/1926555-deus-vai-desaparecer-diz-dan-brown-que-lanca-livro-em-frankfurt.shtml> acesso 15 de outubro de 2017
[2] E. O. Wilson, Consilience: The Unity of Knowledge, Vintage, 2014, p. 31
[3] Citado em Lee Strobel, Em Defesa da fé, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 296
[4] John Lennox e David Gooding, Cristianismo: Ópio do povo?, Porto Alegre: A Verdade, 2013, p. 43; ao invés do termo “deus dos carros”, Lennox usa “Sr. Ford”
[5] Citado em Cristianismo: ópio do povo?, p. 46

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

“Argumentos e evidências são para os que tem fé fraca.” – Uma Resposta

http://www.patheos.com/blogs/unequallyyoked/2016/07/rational-faith-more-working-hypothesis-than-logical-proof.html

Proponentes do Fideísmo costumam dizer que aqueles que possuem argumentos e evidências para sua fé são os que possuem uma fé fraca e, por isso, precisam de um apoio intelectual para ela.
Já lidamos com argumentos baseados em João 20:29 e Hebreus 11:1, que são versículos usados para tentar defender uma fé cega com base na Bíblia. Agora, vamos lidar com a afirmação de que as evidências são para aqueles que possuem uma fé fraca.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Qual a origem de todas as coisas?


  “De onde viemos”? “O Universo foi criado ou sempre existiu”? ”Qual a origem de todas as coisas”? “Como podemos ter certeza de que o que conhecemos é a verdade”? “Qual a melhor maneira de viver”? Perguntas como estas são feitas por qualquer um, são universais, não importa o grau de instrução, raça, idade ou, até mesmo, local de origem. Meu palpite é que você também já pensou sobre estas perguntas. Mas será que o Cristianismo responde a estas grandes questões da humanidade? É pensando em uma destas questões que escrevo este texto, mas não com a minha interpretação, baseio o texto nos escritos de Francis Schaeffer. A Pergunta que respondemos neste texto é: ”Qual a origem de todas as coisas”?


Para o referido autor existem três respostas para esta pergunta, são elas: 
  • ·         Tudo se origina do nada;
O erro que Schaeffer observa neste pensamento é que sempre que dizemos que tudo vem do nada, este “nada” já é alguma coisa e não “nada” realmente. O nada é ausência de ser, mas aqueles que defendem esta posição costumam chamar de “nada” alguma coisa. Geralmente este “nada” é o que chamamos de vácuo quântico – uma flutuação de energia que produz matéria- mas, se alguém o considerar como “nada”, se constituirá uma contradição – como já foi dito acima – para o autor.
  •              Tudo possui uma origem impessoal;
Existem dois problemas que esta resposta desconsidera. A origem impessoal não explica a complexidade da vida e do universo, como também deixa de responder a pessoalidade humana (o que distingue o homem do restante da criação). Como pode o homem ser pessoal se teve uma origem impessoal? Como pode o impessoal gerar o pessoal? Como podem leis naturais gerar complexidade se o processo não é guiado por qualquer ser pessoal? As duas únicas respostas decentes para estas perguntas são: a) Necessidade Física: diz que era necessário que existisse complexidade, tal qual é necessário que existam leis naturais. Este pensamento cai por terra quando entendemos que as leis da natureza não implicam uma necessidade física. b) Acaso: diz que a pessoalidade  e a complexidade são frutos de um processo sem propósito algum que demorou tempo suficiente para que o acaso consiga os fazer nascer. Ideia estranha, não é? Bem, a minha resposta é que ela é improvável. Assim, a origem impessoal não explica a complexidade nem mesmo a pessoalidade humana.
  •              Tudo possui uma origem pessoal;
Esta parece ser a melhor posição, já que responde muito bem a complexidade do Universo e a pessoalidade humana. Uma causa pessoal parece ser mais verdadeira que uma impessoal. Mas esta causa deve ser infinita e independente do Universo causado. O Cristianismo responderia que esta causa é Deus. Sabemos que o Deus cristão é infinito, mas como poderíamos demonstrar que Ele independe do mundo? É neste ponto que Schaeffer recorre à trindade. No Cristianismo a concepção de Deus é bastante sofisticada, onde Ele é dividido em três pessoas que se amam e se amavam antes da criação do mundo (Deus é só um que se divide em três pessoas). Deus não dependia do mundo para ser amado, Ele já era amado antes da criação do Universo e do homem. É por estes motivos – Deus ser pessoal,  infinito e independente do mundo – que Deus é a melhor explicação para a origem do Universo.
Assim, pode-se concluir que Deus existe – visto que é a melhor explicação para o problema exposto (a origem de todas as coisas) e como tal, existe por necessidade – e que não está em silêncio, pois comunicou a sua existência a nós, como também os seus atributos. O Deus pessoal, infinito e independente fala conosco.
Caio Peclat da Silva Paula

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Compre Meus Livros

Esse post será atualizado conforme novas publicações vão sendo feitas.

Título: A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem
Autor: Felipe Soares Forti
Páginas: 104
Editora: Clube dos Autores
Ano: 2017

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Sinopse: A questão da idade da criação é algo que me assombra desde a minha conversão. Acredito que os cristãos não têm dado a devida atenção a esse tema. Ele pode ser irrelevante para a salvação, mas é de extrema importância para a questão da veracidade das Escrituras Sagradas. Alguns cristãos são curiosos com relação a esse tema, enquanto outros negligenciam completamente. Quando eu estava na Igreja Adventista do Sétimo Dia esse foi um dos tópicos que mais me chamavam a atenção. Passei pouco mais de um ano estudando apenas esse tema. Talvez no meio acadêmico esse tempo seja muito curto. Mas senti a importância de compartilhar minhas conclusões com os outros e demonstrar, com base apenas na Bíblia, que ela não fala quase nada sobre a idade da criação. Se o leitor quiser continuar crendo que a criação possui 6.000 anos após a leitura, não há problema. Meu propósito não é convencer de forma cientifica. Porém, se ele quiser afirmar isso com base na Bíblia, encontrará sérios desafios nas páginas que aqui se encontram.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O que os Estudiosos de Grego Pensam da Tradução do Novo Mundo da Bíblia da Sociedade Torre de Vigia?


Por Chad A. Gross

Em seu pequeno livro Os Fatos sobre as Testemunhas de Jeová, os autores John Ankerberg e John Weldon contendem que “estudiosos de Grego, Cristãos e não cristãos universalmente rejeitam...” [1] a Tradução do Novo Mundo (TNM) da Bíblia usada pelas Testemunhas de Jeová.
Um exemplo que eles oferecem é o falecido Dr. Julius Mantey. Como os autores explicam:

Mantey foi um dos principais estudiosos de Grego no mundo. Ele foi o autor de Hellenistic Greek Reader [Leitor de Grego Helenístico] e co-autor, com H. E. Dana, de A Manual Grammar of the Greek New Testament [Um Manual de Gramático do Novo Testamento Grego]. Não apenas ele rejeitava a TNM, ele publicamente demandou que a Sociedade parasse de citar sua Grammar para sustentá-la. [2]

Mantey escreveu:

Eu nunca li o Novo Testamento tão mal traduzido como em The Kingdom Interlinear Translation of the Greek Scriptures [A Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas]. De fato, não é nem sua tradução. Na verdade, é uma distorção do Novo Testamento. Os tradutores usaram o que J. B. Rotherham traduziu em 1893, para a linguagem moderna, e mudaram a leitura em porções de passagens para que falassem o que as Testemunhas de Jeová crêem e ensinam. Isso é uma distorção, não uma tradução.[3]

Bruce Metzger, outro estudioso do Novo Testamento bem conhecido, disse, “As Testemunhas de Jeová incorporaram em suas traduções do Novo Testamento diversas renderizações erradas do Grego.” [4]
O Dr. Robert Countess, que escreveu sua dissertação para seu Ph.D em grego na TNM, concluiu que a tradução:

... tem sido acentuadamente sem sucesso em manter considerações doutrinarias da influencia da tradução real... Ela deve ser vista como uma obra radicalmente tendenciosa. Em alguns pontos ela realmente é desonesta. Em outras ela não é nem moderna e nem acadêmica. E entrelaçado em sua fabricação ela é uma aplicação inconsistente de seus próprios princípios enunciados no Prefácio e no Apêndice. [5]

Como se isso não fosse o bastante, o estudioso Britânico H. H. Rowley chamou a TNM de “um insulto à Palavra de Deus.” [6]
Então, de acordo com estudiosos Cristãos e não-Cristãos, a TNM é tendenciosa, desonesta e errada.

Traduzido de:
TRUTHBOMB APOLOGETICS, What do Greek Scholars Think of the Watchtower Society’s New World Translation of the Bible?, 21 de julho de 2017, disponível em http://truthbomb.blogspot.com.br/2017/07/what-do-greek-scholars-think-of.html  acesso em 21 de julho de 2017




[1] John Ankerberg and John Weldon, The Facts on Jehovah's Witnesses, p. 31.
[2] Ibid., 32
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Ibid.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Deus que não merecemos - Por: Caio Peclat

O Deus que não merecemos



Um Deus que ainda não existe. O Deus que imaginei castiga qualquer um que colocar os pés nesta Terra. Terra suja de sangue. E de quem é o sangue? “Dos homens que meu Deus torturar e os assistir implorando, com a voz trêmula, por misericórdia com os olhos anunciando o terror presente”. Para castigar, somente um Deus mau. Um Deus que poupa somente os inocentes. Inocentes? Como se esta ideia fosse real. Se houvessem inocentes, Ele até pouparia, mas não há inocentes. Todos merecem uma punição mais grave que a morte.
Este Grande juiz ainda não nasceu, mas bem que merecíamos sermos julgados por Ele. Merecemos um Deus que ama a destruição e o sofrimento do homem. A morte, para nós, seria a punição mais branda. Todos são culpados. Mas e o Deus que existe? Bem, Ele é um Deus de amor. Um Deus de infinita bondade e misericórdia dos homens. Não merecemos Deus, merecemos o Diabo. Não merecemos a salvação prometida por este Deus, mas quem disse que Ele se importa com o merecimento? Ele te dá mesmo assim.
 Olhe a sua volta. Estrelas, montes, animais, talvez vales, ou um mar, até mesmo um deserto. O Deus que existe não fez tudo isto pensando em como é prazeroso criar mundos, foi pensando em você. Não merecíamos a vida, mas a possuímos sem merecer. O Deus que inventei faria você implorar para viver no Inferno, já o [Deus] que existe, promete te levar para o Céu. Já que não merecemos a vida até mesmo viver no Inferno já é um favor, te colocar lá é uma prova da bondade Divina. Não somos nem mesmo dignos de termos nascido, até mesmo uma vida miserável nos é um grande favor.

Caio Peclat da Silva Paula

domingo, 9 de julho de 2017

Cristianismo liberal, interpretação de texto e "é para aquela época"


Um dos perigos do “cristianismo moderno” é o de se cair no conto do cristianismo liberal. Eu defino “cristianismo liberal” como aquela forma de cristianismo que se permite sair dos padrões tradicionais das Escrituras para acomoda-la aos padrões gerais da sociedade moderna. Uma das características dessa forma de “cristianismo” é quando a pessoa vê doutrinas importantes que a afetariam diretamente e diz, “ah, mas isso é questão de interpretação.” Além disso, é normal (nesse meio) a ideia de que tudo que a maior parte do que a Bíblia ensina era apenas para a época em que foi escrito. Esse tipo de teologia se tornou muito comum em meios de “cristãos pró-LGBT”, cristãos de esquerda, etc. pelo simples fato de que essa interpretação das Escrituras os permite abrir espaço para o tipo de “liberdade” que desejam.
Há, porém, um perigo óbvio para quem é adepto disso. E é importante salientar esse perigo antes de ver as falhas lógicas dessa visão religiosa. O perigo é o seguinte: Se você descarta o que não gosta na Bíblia como algo “pra época” sem qualquer estudo da possibilidade desse ser o caso ou não, então você esta se colocando acima da Palavra de Deus. Como disse Santo Agostinho: “Se você acredita no que lhe agrada nos evangelhos e rejeita o que não gosta, não é nos evangelhos que você crê, mas em você.”
Agora, quais são as falhas lógicas desse tipo de perspectiva cristã? O primeiro problema está na afirmação de que doutrinas importantes são uma “questão de interpretação.” Nesse caso, é pressuposto que a Bíblia admita diversas interpretações e que, portanto, não devemos “batalhar” para saber qual interpretação esta correta. Não apenas tal posicionamento contradiz o que a própria Bíblia ensina (Judas 1:3), como também é uma posição auto-refutável, ou autocontraditória. Pense nisso: Para dizer que algo é relativo (como, “a interpretação desse texto é relativa”) você tem que conhecer algum sentido objetivo daquele texto. Em outras palavras, a afirmação de que a Bíblia admite diversas interpretações é em si uma interpretação da Bíblia. 
Para saber qual interpretação da Bíblia está correta, devemos nos utilizar os meios apropriados de interpretação bíblica. Considere, por exemplo, a afirmação de Paulo de que o homem deve ensinar e a mulher não, um ensinamento direto contra o pastorado feminino:

A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição.
Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio.
Porque primeiro foi formado Adão, e depois Eva.
1 Timóteo 2:11-13

Como nós podemos saber que esse ensinamento não é para aquela época? Bom, em primeiro lugar, não há nenhum indicio disso no texto. Não parece que Paulo esteja falando apenas para Timóteo, ou apenas para o grupo em que Timóteo estava envolvido, ou apenas para a situação em que Timóteo estava envolvido. O que nos leva ao segundo ponto: Note que Paulo usa como justificativa Adão e Eva. O que isso implica é que essa seja uma ordem de criação, não de algo para a época.
Acredito que esses pontos tornem extremamente difícil de se interpretar esse texto de outra forma. Porém, se alguém mostrar minhas conclusões como erradas a partir de métodos de interpretação séria do texto, eu posso reconsidera-las.
Como segundo exemplo, considere as leis do Antigo Testamento. Como nós sabemos que elas eram para a sua época, e não pra sempre? Porque elas faziam parte das palavras da Antiga Aliança, as quais a Nova Aliança veio para “substituir”, por assim dizer. Como diz o autor de Hebreus:

Chamando "nova" esta aliança, ele tornou antiquada a primeira; e o que se torna antiquado e envelhecido, está a ponto de desaparecer.
Ora, a primeira aliança tinha regras para a adoração e também um tabernáculo terreno.
Foi levantado um tabernáculo; na parte da frente, chamada Lugar Santo, estavam o candelabro, a mesa e os pães da Presença.
Por trás do segundo véu havia a parte chamada Santo dos Santos,
onde se encontravam o altar de ouro para o incenso e a arca da aliança, totalmente revestida de ouro. Nessa arca estavam o vaso de ouro contendo o maná, a vara de Arão que floresceu e as tábuas da aliança.
Hebreus 8:13-9:1-4

Outros textos, como Colossenses 2:14-17 e Hebreus 8:5 também destacam que leis cerimoniais eram sombras da realidade de Cristo. [Edit: Para evitar confusões, há de ser dito que muitas leis do Antigo Testamento são direcionadas especificamente para Judeus, não pra Cristãos.]
Desse modo, torna-se evidente como devemos tratar, nas Escrituras, questões que são “para a época” ou não.
Ainda mais preocupante do que tratar questões bíblicas como “questões da época” é o tratamento da moralidade como subjetiva para a época. Por exemplo, dizer que Paulo condenou o comportamento homossexual em Romanos 1 porque isso era invalido “para aquela época”, ou dizer que Jesus era contra o divórcio porque era algo errado “para aquela época”, etc. Esses tipos de ensinamentos não só são logicamente inválidos, como também são completamente anticristo. Pense nisso por um segundo: Cristo morreu por nossos pecados. O que são pecados? São atos objetivamente errados. Portanto, se não há uma moral objetiva para todas as épocas, Cristo morreu em vão.
Se a moralidade fosse subjetiva, você não precisaria se reconciliar com Deus. Apenas diria “isso é errado pra você, mas não pra mim. Assim, eu não pequei.” Se não há certo e errado, então não há pecado. Se não há pecado, não tem porque Cristo morrer. 
Agora, apontar para o desenvolvimento moral da sociedade é um tipo de argumentação invalida. Em primeiro lugar, só porque a percepção moral das pessoas mudou com a época, isso não significa que a moral seja subjetiva. Isso seria uma confusão entre epistemologia e ontologia, quer dizer, uma confusão entre “como sabemos” com “o que é.” Em segundo lugar, se a moralidade fosse subjetiva de acordo com a sua época, nós nunca poderíamos dizer que a nossa época tem valores melhores. Isso porque, se não há moral objetiva, então nós não melhoramos de acordo com um padrão, mas, na verdade, apenas mudamos de regras. Desse modo, não temos como dizer que a escravidão era algo errado, ou que torturar pequenos bebês por diversão seja algo errado. São apenas opiniões.
Por fim, se a moral fosse subjetiva de acordo com a sua época, todo e qualquer movimento “revolucionário” de hoje em dia perderia seu fundamento principal. Um movimento como a legalização do aborto pressupõe que haja uma resposta certa ou errada com relação à mulher envolvida e ao bebê que esta para nascer. Do mesmo modo, ninguém poderia proclamar direitos, já que o próprio conceito de “direitos humanos” pressupõe um valor moral.
Também pode ser dito que alguém pode querer responder a esse texto. Porém, tal atitude implicaria que a pessoa crê em uma resposta certa e que eu estou errado. E se eu fosse responder a essa resposta, também seria pressuposto pelo meu adversário que seria errado eu representar sua posição de forma errada, ou utilizar de argumentos ad hominem, ou que eu não minta, ou que eu seja honesto, etc. Desse modo, escapar de uma experiência de moral objetiva torna-se extremamente difícil.

Em suma, não devemos cair no conto de “é apenas a sua interpretação.” Devemos utilizar os métodos apropriados de exegese bíblica para interpretar um texto, assim descobrindo o que é para a época e o que não é. Além disso, é difícil um cristão ser um relativista moral, já que isso acabaria com toda a necessidade da obra de Cristo.