segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sim, sua igreja precisa de apologética.


Como apologista cristão, já li e ouvi muitas objeções contra o uso da apologética cristã na evangelização e contra o ensino da apologética na igreja. Claro, existem diferentes tipos de apologética, e alguns realmente não poderiam ser usados na evangelização. Por exemplo, você não vai usar apologética de defesa de doutrina na evangelização. Se você for pras ruas falar de Cristo e acabar falando de eleição incondicional, lamento, você é burro! Mas enfim, no texto de hoje, vamos responder a mais alguns argumentos de igreja contra o uso de apologética.

Sim, sua igreja precisa de apologética.


O caso bíblico


Não importa o quão calvinista você seja e creia que Deus vai fazer da forma que quiser, você não pode negar os comandos bíblicos:

Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.
1 Pedro 3:15

Amados, embora estivesse muito ansioso por lhes escrever acerca da salvação que compartilhamos, senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé uma vez por todas confiada aos santos.
Judas 1:3

Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo.
2 Coríntios 10:5

De fato, negar que a Bíblia fale qualquer coisa sobre o uso da defesa da fé é ignorar tudo o que acontece no livro de Atos, em particular, toda a jornada de Paulo. Paulo utilizou o método apologético conhecendo os seus rivais e argumentando a favor de Cristo a partir da crença deles:

Porque, embora seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número possível de pessoas.
Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, tornei-me como se estivesse sujeito à lei, ( embora eu mesmo não esteja debaixo da lei ), a fim de ganhar os que estão debaixo da lei.
Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei ( embora não esteja livre da lei de Deus, mas sim sob a lei de Cristo ), a fim de ganhar os que não têm a lei.
Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns.
Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele.
1 Coríntios 9:19-23

Até mesmo Jesus apelou para o uso da apologética. Ele sempre utilizava Seus milagres como evidência de quem Ele é:


Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras.
João 14:11

Se não faço as obras de meu Pai, não me acrediteis.
Mas, se as faço, e não credes em mim, crede nas obras; para que conheçais e acrediteis que o Pai está em mim e eu nele.
João 10:37,38

J. Warner Wallace comenta:

No final, o Apostolo João escreveu mais sobre o método evidêncial de Jesus do que qualquer outro escritos dos Evangelhos. De acordo com João, Jesus repetidamente oferecia evidência de Seus milagres para verificarem sua identidade e dizia a seus observadores que essa evidência era suficiente [...]  João frequentemente descreve Jesus como alguém que oferece evidência de seus poderes miraculosos para demonstrar Sua Deidade. De fato, a passagem descrevendo a dúvida de Tomé também é uma afirmação de uma fé evidêncial, se for lida completamente. [...] Bem aventurados são aqueles que não viram e creram, portanto muitos outros sinais também foram realizador por Jesus na presença dos discípulos? Você vê a contradição aqui? Por que Jesus iria continuar providenciar evidência se aqueles que crêem sem evidência são supostamente os bem aventurados? [1]

Além disso, Jesus apelava para a evidência vinda das profecias. Tanto suas profecias quanto milagres poderiam constituir um caso cumulativo para o seguinte argumento de Jesus:

1.       Se alguém fizer essas coisas [milagres e cumprir profecias], então esse alguém é Deus
2.       Eu fiz essas coisas
3.       Portanto, Eu sou Deus.

Negar a apologética é, então, negar o que a Bíblia comanda, o que os Apóstolos fizeram e o que Jesus fez.
Devo concordar com Davi Charles Gomes, quando ele diz que quando um cristão diz que não deve defender sua fé, ele esta fazendo basicamente isso: Vê as verdades do seu Senhor e Salvador sendo atacadas e diz: “Dane-se. Não é problema meu.” Estão blasfemando contra seu Senhor e você esta dizendo “dane-se.”. Davi conta como isso é incoerente com uma história cômica, mas a conclusão importante:

Três amigos juntos num avião. Os três eram amigos de infância, mesma idade. [...] O piloto trabalhava pra um fazendeiro rico. Ele tinha ligado para os outros dois amigos, um no seminário e o outro que morava na cidadezinha do interior onde eles tinham crescido, e disse: “eu fiz manutenção no jatinho. Preciso rodar de oito a dez horas de teste com ele. O que vocês acham de rodar ao redor do Brasil comigo?” E, na empolgação de jovens, eles foram. [...] As duas turbinas falharam durante o voo e o seminarista perguntou: “Da pra voar e aterrissar sem turbina?”, o piloto respondeu que não. E o outro amigo disse: “Dane-se, o avião não é meu!” E tem muitas atitudes na vida que me lembram essa ultima frase. E me da vontade de dizer: Querido! Irmão! Você esta no avião!
Muita gente diz: “Esse negócio de apologética... Não precisa!”, “a Bíblia diz pra não ter disputas”, “Eu estou com a minha fé, eu estou bem!”, “É só Jesus!”, “Deus não precisa de defesa...” E nós não percebemos que essa atitude é uma atitude que diz: “O problema não é meu. Dane-se. O avião não é meu...” [2]

Estamos em um avião de Cristo. Se suas verdades estão sendo atacadas, então devemos defende-las. Então, vamos lidar com algumas objeções contra a apologética. Mas antes, um lembrete: Qualquer objeção contra o uso da apologética, além de ser uma apologética contra a apologética, é contra o ensino bíblico. Por exemplo, a passagem de 1 Pedro 3:15 é traduzida como “esteja sempre preparado para responder a qualquer um que lhe pedir a razão da esperança que há em vos”. A palavra grega para “responder” é apologia, que significa literalmente “defesa”. Peter Rasor comenta:

A palavra “defesa” vem da palavra Grega apologia, e é encontrada em 1 Pedro 3:15: “mas, santificai a Cristo como Senhor em seus corações, estando sempre preparados para fazer uma defesa a todos que pedirem uma razão da esperança que há em vocês” (NASB. Ênfase minha). A palavra “defesa” (apologia) era usada nos tempos gregos para se referir à resposta racional de um advogado para responder às acusações contra seu cliente. Como usada em 1 Pedro, apologia implica a ideia de que Cristãos deveriam dar respostas racionais para a esperança que eles tem em Cristo quando lhes pedirem. [3]

Objeção: “Apenas evangelize e fale da Bíblia!”


“Apenas evangelize” é uma objeção terrível. Em primeiro lugar, ela pressupõe que a pessoa esteja, de alguma forma aberta ao evangelho. E, por favor, não me venha com “hiper sola scriptura” dizendo que só devemos usar a Bíblia. Nem mesmo o Apostolo Paulo fez isso, e essa nunca foi a doutrina de Sola Scriptura da Reforma. Nem mesmo esse pensamento é Bíblico, mas sim um posicionamento filosófico.
“Esta dizendo que a Bíblia não é o suficiente? Que o evangelho é fraco? Que a razão é mais forte que o Espirito Santo?” Esses argumentos psicológicos não funcionam. O uso da razão e da teologia natural nunca é algo feito sozinho, sem a agencia do Espirito Santo. De fato, se formos apelar para esses argumentos psicológicos, poderíamos igualmente retrucar dizendo: Esta dizendo que existe uma área da criação que o Espirito Santo é incapaz de agir?
Até mesmo o teólogo reformado R. C. Sproul admite a capacidade do uso da razão e da teologia natural como uma forma do Espirito Santo agir. Ele diz: “O homem, nascido neste mundo, não precisa confiar em uma ‘razão isolada’, porque desde a criação do mundo, ‘as coisas invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua divindade, se entendem e claramente se vêem’ (Rm 1.20a)” [4]

Objeção: “Deus não precisa de defesa!”


Verdade. E dai? A apologética não é defender Deus, mas sim defender as coisas de Deus e apresentar razões do porque Cristãos creem no que creem.

Objeção: “Você não pode colocar alguém no Reino argumentando!”


Verdade. Sem o Espirito Santo não adianta argumentar. Mas, como K. Scott Oliphint disse, você também não pode colocar alguém no Reino pregando. Se o Espirito Santo não agir, ninguém será convencido, seja por argumentos ou pela exposição simples do evangelho. (Nesse ponto, arminianos e calvinistas concordam!)
De fato, até mesmo os Profetas do Antigo Testamento utilizavam de argumentos. Como William Lane Craig e J. P. Moreland colocaram:

Os profetas do Antigo Testamento frequentemente recorreram a vastos argumentos sobre a natureza do mundo para justificar a religião de Israel. Por exemplo, eles ridicularizavam os ídolos pagãos por sua fragilidade e insignificância. O mundo é muito grande, afirmavam, para haver sido feito por algo tão pequeno (v. Is 44 e 45) Argumentos como esse admitem uma posição filosófica sobre a natureza da causalidade; por exemplo, que um efeito (o mundo) não pode advir de algo menos poderoso do que ele próprio (o ídolo). Da mesma forma, os profetas frequentemente recorriam aos princípios gerais do raciocínio moral para criticar a imoralidade das nações pagãs (p. ex., Am 1 e 2). Argumentos como esse utilizam a lei moral natural e os princípios filosóficos gerais do raciocínio moral. [5]

Troque o excesso de emoção por alguma razão


Igrejas tem focado muito em emoção e eventos amigáveis. Por um lado, os pentecostais focam na emoção e nos arrepios que sentem nos cultos. Por outro, os calvinistas fazem qualquer evento e pregam a palavra, pensando “se for eleito ele crerá”. É possível que isso funcione? Sim, com a ajuda do Espirito Santo, sim. Mas imagine como ajudaria a moldar a cultura com algo mais racional. Como Frank Turek diz:

...muitos pais e igrejas enfatizam emoção e ignoram o comando bíblico de desenvolver a mente, o que significa que a maioria das crianças pulam pra faculdade equipadas com nada mais do que emoções para se sentirem bem. Se bandas, pizza e Pepsi pudessem equipar os jovens da igreja com o poder de fogo intelectual para defender o Cristianismo, nós não teríamos tantas crianças deixando a igreja.
Se você ganha crianças com algo, você as ganha para esse algo. Se você as ganha com emoções, você as ganha para emoções. Infelizmente, emoções não são páreas para os professores ateístas de faculdades que tem a intenção de minar suas crenças. Fatos são necessários. Emoções vêm e vão, mas fatos nunca mudam. [6]

Conclusão


Ser contra a apologética, além de não-bíblico é perigoso. Os Profetas usaram, os Apóstolos usaram, Jesus usou. Desistir da razão e dos argumentos é ignorar quase tudo o que foi feito na Bíblia. Desistir da apologética é desistir de moldar a cultura para o Evangelho. É o Espirito Santo que convence. E Ele pode usar o método que quiser.

Fontes


[1] - COLD-CASE CHRISTIANITY. Did Jesus commend faith that is blind?. Disponível em: http://coldcasechristianity.com/2016/did-jesus-commend-faith-that-is-blind/ Acesso em: 04 nov. 2016.
[2] – O choque de cosmovisões: os atuais rivais do cristianismo - Davi Charles Gomes, https://www.youtube.com/watch?v=sPOlK24bTkc&t=1658s
[3] - THE BLADE BLOG. Is apologetics really needed? answering objections to apologetics. Disponível em: http://thebladeonline.org/wordpress/2014/10/is-apologetics-really-needed-answering-objections-to-apologetics/ Acesso em: 28 nov. 2016.
[4] - SPROUL, R. C.. Defendendo sua fé: Uma Introdução à Apologética.  Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p. 70
[5] - CRAIG, William Lane; MORELAND, J. P.. Filosofia e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 31
[6] - TUREK, Frank. Stealing from God: Why atheists need god to make their case. [S.L.]: NavPress, 2014. p. XXVI

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